Cildo Meireles - Inserções em circuitos ideológicos: Projeto cédula, carimbos de borracha sobre cédulas, 6,5 x 15 cm, 1970 - 1976

Sobre Inserções em Circuitos Ideológicos – Projeto Cédulas

Parte da série Inserções em Circuitos Ideológicos, a obra de Cildo Meireles composta por cédulas bancárias carimbadas e colocadas de volta em circulação após a intervenção, intitulado Projeto Cédulas, que durou de 1970 a 1976, é um exemplo bastante didático de como a arte conceitual se apresentou e circulou no Brasil nos anos 70.
A obra traz vários dos conceitos que hoje são usados para descrever e contextualizar o período artístico de meados dos anos 60 até o final da década seguinte, a arte conceitual: imaterialidade, como dito por Cristina Freire (2010), deslocamento do circuito de circulação, apropriação, tanto do objeto da cédula quanto do ato popular de intervir nas notas e de seu circuito, transitoriedade, contextualização, materiais simples,  reprodutibilidade e inserção no cotidiano e, portanto, na vida. Através de todos esses conceitos aplicados, o Projeto Cédulas se torna uma obra didática para o entendimento da arte conceitual dentro do contexto brasileiro.

Cildo Meireles – Inserções em circuitos ideológicos: Projeto cédula, carimbos de borracha sobre cédulas, 6,5 x 15 cm, 1970 – 1976

• Imaterialidade: A produção da obra se dá através do uso de um objeto sobre outro: o carimbo sobre a cédula, e sua legitimação se dá pela utilização do circuito popular. Nenhum dos objetos soltos constitui a obra, são apenas duas coisas de uso cotidiano, objetos potenciais; o ato de fazer a impressão com as mensagens escolhidas e colocá-las de volta em circulação que constroem a obra. Assim, mesmo que modificado o objeto, que se torna o veículo a ser colocado em circulação, a obra está na ação que foi realizada e em seu alcance ao máximo possível de pessoas.

• Apropriação: O artista se usa de três tipos de apropriação: o objetual, que serve como veículo para a ação da obra, o antropológico, que remete ao costume popular de escrever sobre dinheiro com a exata mesma intenção do artista de voltar a cédula com a mensagem de volta ao circuito, e o do circuito de circulação popular das notas de dinheiro.

Todas as escolhas de apropriação carregam seus significados. O objeto cédula bancária tem caráter econômico por ser o meio físico com o qual a economia se move no cotidiano popular. Apesar de seu valor ser relativo e injetado pelas convenções – afinal é apenas papel –, o contato final com a economia e com as relações de valor se dá pelo uso do dinheiro.

A apropriação do costume popular se dá pelo mesmo motivo que as próprias pessoas intervém sobre as notas e remete à apropriação do circuito: para colocar suas mensagens no grande ciclo no qual circula o dinheiro, um dos mais abrangentes e importantes em qualquer nação.

• Transitoriedade: A obra não poderia ter a intenção de perdurar a partir do momento que a escolha de veículo foram as cédulas e o circuito do dinheiro. Com a intensa circulação, ocorre o intenso desgaste das cédulas, que são substituídas periodicamente. Assim, mesmo que a mesma moeda permanecesse por muito tempo em circulação, as notas seriam gradativamente avariadas, recolhidas e destruídas.

• Contextualização: Dentro da Ditadura Militar, colocar uma manifestação artística dentro do cotidiano das pessoas era uma forma D.I.Y. (Do It Yourself, Faça Você Mesmo) de burlar a censura de forma simples e eficiente. A veiculação do trabalho não dependia de meios de divulgação previamente censurados nem do mercado artístico,  mas, a partir do momento que era feita no circuito popular, se sustentava sozinha até a retirada da nota do mercado ou sua destruição. O controle das cédulas de dinheiro é difícil e lento, portanto as mensagens poderiam circular por muito tempo e por muitas pessoas diferentes rapidamente.

Uma das mensagens carimbadas nas notas era “QUEM MATOU HERZOG?”, em referência ao jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975, durante o período da Ditadura Militar. Herzog havia sido convocado a prestar depoimento sobre seu suposto envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro e foi encontrado morto em sua cela no dia seguinte ao interrogatório, sendo declarado que a causa da morte foi suicídio. Como em muitos outros casos de declarados suicídios pela da Ditadura Militar brasileira, o caso de Herzog apresentava evidências de assassinato, mas o regime totalitário insistia em oficializar as mortes como suicídios. A mensagem de Cildo Meireles, dizendo que a morte de Herzog foi um assassinato e indagando de quem é a culpa, é uma afronta clara e irônica ao governo vigente, que persistia em tentar mascarar seus crimes, colocando a responsabilidade sobre os mortos.

• Materiais Simples e Reprodutibilidade: O carimbo é um dos objetos cotidianos que permite facilmente a reprodução seriada de seu conteúdo em grande quantidade. Sua vida útil é longa e seus custos de produção e manutenção são baratos. O uso do carimbo para a reprodução das mensagens nas notas é eficiente e, ainda, distancia o artista da autoria da obra, pois os carimbos utilizados eram desprovidos de traços gráficos únicos, sendo a tipografia e a diagramação das frases comuns como naqueles de produção rápida, e o ato de carimbar poderia ter sido feito por qualquer pessoa, não necessariamente o artista. Mesmo com essa aparente falta de personalização, as mensagens ainda são fruto do pensamento do autor e constroem a obra ao entrarem em circulação novamente. A factura por parte do artista deixa de ser importante, mas é dele a concepção do funcionamento da obra, esse sim o ponto central para sua legitimação.

Inserções em Circuitos Ideológicos carrega um nome aparentemente literal, mas o uso da palavra “ideológicos” traz a conotação política e social especial da arte conceitual latino-americana. Tratar os circuitos de circulação de bens e dinheiro, como no caso do Projeto Cédulas, como ideológicos é refletir sobre a própria natureza do capitalismo dentro do cotidiano e sua influência sobre o comportamento das pessoas. O uso de “ideológico” provavelmente vem do conceito marxista de ideologia, que pressupõe a imposição de valores por meio do discurso e a consequente alienação dos grupos dominados. Na obra de Cildo Meireles, não se trata apenas do gesto natural da troca de dinheiro, mas de como essa troca foi internalizada como natural sendo que, na verdade, não é. A inserção de mensagens tenta quebrar essa alienação se aproveitando do grande circuito de circulação de moeda, tão absorvido pelas pessoas.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s